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title: "Ansiedade Parental e Uso Excessivo do Pronto-Socorro Pediátrico: O Que a Evidência Diz"
description: 77,3% dos atendimentos pediátricos em PA são não urgentes. Entenda o papel da ansiedade parental nesse padrão e o que a literatura diz sobre intervenções eficazes.
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# Ansiedade Parental e Uso Excessivo do Pronto-Socorro Pediátrico: O Que a Evidência Diz

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 Kidzenith | Blog

3 de julho de 2026

A sobrecarga dos prontos-atendimentos pediátricos é um fenômeno documentado em sistemas de saúde de todo o mundo. No Brasil, dados recentes da Sociedade Brasileira de Pediatria indicam que 77,3% dos atendimentos pediátricos em pronto-atendimento são classificados como pouco urgentes ou não urgentes — um número que se mantém consistente há mais de uma década e que coloca uma questão central para o sistema: por que famílias continuam buscando o PA para situações que não o requerem?

A resposta mais consistente na literatura não está na educação deficiente dos pais, no acesso limitado à atenção primária ou na baixa literacia em saúde — embora esses fatores contribuam. Está na ansiedade parental.

## **Resumo executivo**

- 77,3% dos atendimentos pediátricos em PA no Brasil são classificados como pouco urgentes ou não urgentes (SBP, 2024)
- 91,6% dos responsáveis chegam ao PA com alto ou moderado nível de ansiedade — independentemente da gravidade clínica da criança (Rodrigues et al., 2024)
- A ansiedade parental é um preditor independente do uso do PA, mesmo após controle para gravidade do sintoma
- Intervenções baseadas em orientação pré-assistencial — telefônica ou digital — demonstram redução de 20 a 35% nas visitas evitáveis ao PA
- A janela entre o início do sintoma e a decisão de buscar atendimento é o ponto de maior potencial de intervenção

## **O problema: dimensionamento no Brasil**

O pronto-atendimento pediátrico no Brasil opera em estado crônico de sobrecarga. Dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH-SUS) e da ANS documentam padrões consistentes de uso não urgente que impactam a qualidade do atendimento, o tempo de espera e os custos do sistema.

No setor de saúde suplementar, o custo do excesso pediátrico é expressivo: em 2023, foram gastos R$154 milhões em internações respiratórias pediátricas — 52% acima de 2019, segundo dados do Observatório de Saúde na Infância da Fiocruz. A maior parte desse custo está concentrada em situações que a literatura reconhece como potencialmente evitáveis com intervenção precoce adequada.

A classificação de Manchester, adotada como padrão na maioria dos prontos-atendimentos pediátricos brasileiros, categoriza de forma sistemática o nível de urgência das queixas. Os dados consistentemente mostram que a maioria dos atendimentos se concentra nas categorias verde (pouco urgente) e azul (não urgente) — com pico nos horários noturnos e nos fins de semana, exatamente quando o acesso à atenção primária é mais limitado.

## **O motor: ansiedade parental, não gravidade clínica**

### **O que é ansiedade parental em contexto clínico**

A ansiedade parental, no contexto da saúde infantil, refere-se ao estado emocional de preocupação excessiva e desproporcional à situação clínica real da criança, frequentemente acompanhado de comportamentos de busca de segurança — incluindo visitas ao pronto-socorro ou busca por segunda opinião médica.

É importante distinguir ansiedade parental de incompetência ou negligência. A literatura é clara em apontar que o uso excessivo do PA por pais ansiosos não reflete falta de cuidado — reflete excesso de cuidado sem o referencial adequado para calibrá-lo.

### **A evidência sobre ansiedade parental e uso do PA**

Estudo de Rodrigues e colaboradores, publicado na Revista de Residência Pediátrica com base em dados da SBP (2024), avaliou o perfil de responsáveis que buscaram o PA pediátrico com queixas classificadas como não urgentes. Os resultados são relevantes para a prática:

- 91,6% dos responsáveis apresentavam alto ou moderado nível de ansiedade na chegada ao PA
- A percepção de gravidade pelos pais divergiu significativamente da classificação clínica em mais de 70% dos casos
- Pais primigestos e pais de crianças abaixo de 2 anos apresentaram maiores níveis de ansiedade independentemente do diagnóstico
- A principal motivação declarada para a busca do PA foi a ausência de outra referência disponível no momento — não a percepção de urgência absoluta

Esses dados replicam padrões documentados em estudos europeus e norte-americanos: a ansiedade parental é preditor independente do uso do PA, mesmo após controle estatístico para gravidade do sintoma, acesso à atenção primária e perfil socioeconômico.

## **Por que a ansiedade parental persiste — e por que campanhas educativas falham**

A resposta instintiva do sistema de saúde ao problema do uso excessivo do PA tem sido a campanha educativa: cartilhas sobre quando ir ao PA, postagens em redes sociais, orientações na consulta de puericultura.

A literatura demonstra que essas intervenções têm efeito limitado e transitório. A razão é estrutural: a ansiedade parental não é um problema de conhecimento — é um problema de ausência de referência no momento certo.

Um pai que leu a cartilha sobre quando ir ao PA às 14h da terça-feira, na sala de espera da consulta de rotina, não necessariamente consegue aplicar esse conhecimento às 23h de uma quinta-feira, com o filho chorando com febre e o consultório fechado.

O momento da dúvida e o momento da informação estão dissociados. É essa dissociação que o sistema ainda não resolveu.

## **A janela pré-assistencial: onde mora a oportunidade de intervenção**

A literatura de saúde digital e de comunicação em saúde identifica consistentemente uma janela de oportunidade entre o início do sintoma e a decisão de buscar atendimento. Nessa janela — que pode durar de minutos a horas — a família está buscando informação, avaliando a situação e tomando uma decisão que pode ou não resultar em uso da rede assistencial.

É nessa janela que intervenções de baixo custo têm demonstrado maior impacto.

Características da janela pré-assistencial:

- Alta receptividade a orientações externas — a família está ativamente buscando informação
- Ponto de decisão ainda aberto — a busca ao PA não foi decidida de forma irreversível
- Acesso predominantemente digital — smartphones são o primeiro recurso de busca de informação de saúde para a maioria das famílias brasileiras

## **O que a literatura diz sobre intervenções eficazes**

### **Linhas de apoio telefônico**

Serviços de orientação telefônica de enfermagem (nurse triage lines), bem estabelecidos no Reino Unido (NHS 111) e nos países nórdicos, demonstraram reduções de 20 a 30% nas visitas ao PA para casos triados como não urgentes. A limitação é o custo operacional e a dificuldade de escala no sistema brasileiro.

### **Orientação digital e chatbots clínicos**

A emergência de ferramentas digitais de triagem e orientação pré-assistencial representa a fronteira atual de intervenção. Revisões sistemáticas recentes identificam que ferramentas de orientação digital baseadas em protocolo clínico estruturado, quando combinadas com supervisão profissional, demonstram:

- Redução de 25 a 35% nas visitas ao PA para casos triados como não urgentes
- Alta satisfação dos usuários — especialmente em horários em que outras referências estão indisponíveis
- Segurança clínica equivalente à triagem telefônica de enfermagem para casos de baixo risco

A condição crítica para eficácia é a qualidade do protocolo clínico subjacente: ferramentas baseadas em inteligência artificial genérica sem supervisão clínica especializada apresentam taxas de erro inaceitáveis em contexto pediátrico.

### **Educação parental estruturada**

Programas de educação parental em saúde infantil — quando entregues de forma longitudinal, personalizada por faixa etária e acessível no momento da necessidade — demonstram impacto moderado mas consistente na redução da ansiedade parental e no uso mais adequado dos serviços de urgência.

## **Implicações para a prática clínica**

Para o profissional de saúde que trabalha com famílias de crianças pequenas, os dados sugerem algumas implicações práticas:

**1. A orientação no momento da consulta não é suficiente** A orientação sobre quando buscar o PA, para ser eficaz, precisa estar disponível no momento da dúvida — não apenas na consulta de puericultura. Estratégias que mantêm o vínculo com a família entre as consultas têm impacto maior do que orientações pontuais.

**2. A ansiedade parental merece abordagem explícita** Validar a preocupação dos pais e oferecer critérios claros e personalizados para a tomada de decisão — "se acontecer X, vá ao PA; se acontecer Y, pode observar em casa" — demonstra impacto maior do que orientações genéricas.

**3. A triagem pré-assistencial é complementar, não substitutiva** Ferramentas de orientação digital e triagem pré-assistencial não substituem a consulta médica — e as melhores ferramentas deixam isso explícito. Elas funcionam como filtro qualificado que direciona cada caso ao nível de atenção proporcional.

## **O papel do profissional de saúde na redução do uso desnecessário do PA**

A redução do uso excessivo do PA pediátrico não é responsabilidade exclusiva das famílias — é um problema sistêmico que requer resposta sistêmica.

O profissional de saúde que acompanha famílias com crianças pequenas tem papel central em:

- Identificar e abordar ativamente a ansiedade parental nas consultas de puericultura
- Oferecer critérios claros e personalizados para tomada de decisão
- Conhecer e recomendar ferramentas de orientação qualificadas disponíveis entre as consultas
- Contribuir para o desenvolvimento e a validação de protocolos clínicos pediátricos confiáveis

O problema não se resolve com mais PA. Se resolve com mais presença qualificada no momento certo.

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## **Referências**

- Rodrigues et al. Perfil dos atendimentos pediátricos em pronto atendimento e nível de ansiedade parental. Revista de Residência Pediátrica / SBP, 2024.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Dados de atendimento pediátrico em urgência e emergência, 2024.
- Fiocruz / Observatório de Saúde na Infância. Internações respiratórias pediátricas no Brasil, 2024.
- Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Dados de utilização de serviços de saúde, 2023–2024.
- Aziz K et al. Parental anxiety and emergency department use in pediatric populations: a systematic review. Pediatric Emergency Care, 2022.
- Turner J et al. Telephone triage and advice services: a systematic review of their impact on emergency department attendance. Health Technology Assessment, 2013.

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⚠️ **Nota editorial:** Este artigo tem finalidade educativa para profissionais de saúde. Não substitui protocolos institucionais, diretrizes clínicas ou julgamento clínico individualizado.

 

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